terça-feira, 5 de maio de 2009

Frieda, a Vampira - Volume 1: A nobreza despida (1814 - 1854) - Capítulo 9: Penetrando nas linhas inimigas

Passados dois dias de sua chegada, o falso circo circulava pela cidade sem despertar nenhuma desconfiança e maravilhado com a grandiosidade da capital do Império da Áustria ao mesmo tempo estarrecido com a miséria na qual viviam inúmeros habitantes.
- Meu Deus, como pode o Imperador gastar tanto dinheiro fazendo essas obras e deixar os pobres à própria sorte?! - perguntava Wilbur horrorizado.
- Eles ainda por cima pagam os absurdos impostos cobrados por esse monstro sob pena de apodrecerem na cadeia apenas para manter os luxos absurdos da nobreza ociosa e parasitária que o cerca e o pior de tudo é que nessa nobreza certamente aquele biltre britânico está incluído ao lado daquela porca luxuriosa! - exclamou Levine furioso, porém em baixo tom.
- De nada adianta ficarmos divagando, o melhor que podemos fazer nesse caso é ajudar essas pessoas com pelo menos um pão sobre a mesa - disse Harold um tanto triste e pensando em como podia ver aquilo sem poder fazer muita coisa.
Klemens estava furioso com as cantadas que recebia devido ao seu perfeito disfarce de cigana, porém acostumava-se com aquela situação para salvar seus amigos e a bela e futura cidade que se desenvolvia.
Maria e Anton ficavam sempre juntos, ainda que isso deixasse Lauzun um tanto constrangido, afinal de contas, nem casados eles eram ainda, porém, Anton queria matar Frieda para impedir seus maléficos planos.
Ao mesmo tempo, Frieda aproveitava-se das saídas de George e dos descansos longos da cunhada Lucrecia para ir para a cama com o Marquês de Munchaünsen na casa deste, onde passava horas se divertindo sexualmente com ele e de onde ia embora usando seus poderes de vampira, de modo que ninguém percebesse que ela traía o “marido”, porém, ela nem desconfiava que seus planos talvez estivessem a um passo de serem arruinados.
Enquanto isso, em uma parte secreta da casa de George Witcherwell, o pequeno Arthur Raven estava acorrentado pelos pés e tinha tido sua varinha escondida pelo bruxo Klaus Wolff.
- Isso dói muito moço, pode pelo menos soltar um pouco as correntes? - disse o menino sentindo muita dor no tornozelo.
- O senhor Witcherwell deu ordens expressas para que eu não o soltasse até a hora dele voltar, afinal, você já tentou fugir várias vezes e não quero correr de novo esse risco - sorriu o cruel Tutchenko.
Lucrecia ouviu a conversa e não conseguia evitar a tristeza, pois o pequeno Arthur tinha a idade que teria o filho dela caso este não tivesse morrido aos sete meses vítima de pneumonia. Levava comida às escondidas para o menino, pois não o queria passando fome.
Aquela vampira inglesa ainda possuía uma ponta de bondade, pois não podia evitar pensar quando via o menino: - Se você não tivesse família, eu juro que te adotava pequeno, você tem a idade que teria o meu Wenzel se ele tivesse ficado vivo.
Todas as vezes que Arthur via os pensamentos de benevolência dela e dizia que gostava de Lucrecia, ela se perguntava por que tinha sido tão má a vida toda, até mesmo se arrependendo de seus atos passados e de ter se deixado virar vampira. Ela sabia como Frieda era cruel e impiedosa, inclusive a vampira chegara a ponto de esbofetear o rosto do menino e ameaçá-lo com um ferro em brasa apenas para torturá-lo.
- Onde eu estava com a cabeça quando permiti que Frieda fizesse isso comigo me deixando levar por aquela beleza angelical dela? - Lucrecia se perguntava ao chegar ao seu quarto e ver seu mundo cair, no melhor estilo da fossa moderna de Maysa e continuava divagando: - Porém, talvez assim eu consiga ter mais chances de fazer algo melhor pelo menino. Eu sempre imaginei que aquela vampira era perversa, mas nem tanto assim! Meu Deus, como ela pode odiar tanto um menino como aquele? Uma criança tão linda sofrendo daquela forma nas mãos daquele monstro! - até que decidiu:
- Mesmo que Frieda me dê uma estaca no meio do peito, eu tiro Arthur daqui! Não posso continuar vendo isso e não fazer nada além de levar comida escondida para ele!
Imediatamente, Lucrecia, se aproveitando que naquela hora o criado siberiano sumia sem dizer aonde ia, foi ao quarto dele, onde ela sabia que estava guardada a varinha do menino e um papel onde estavam escritas as localizações da mãe e irmãs dele, e pegou-os, indo em seguida para o porão soltá-lo e ajudá-lo a escapar. Logo depois de soltar o menino, ela foi ao seu quarto e arrumou suas roupas, jóias e outros pertences, disposta a ir embora em definitivo depois de deixar Arthur e sua família sãos e salvos.
Surpreso ao se perceber livre, Arthur agradeceu muitas vezes abraçando fortemente Lucrecia, que achou melhor usar a cocheira para levá-lo, porque com os tornozelos machucados e as pernas doendo ele não iria longe.
- Vou te levar para um lugar que eu conheço e lá você vai melhorar dos seus machucados e quanto ao Klaus Wolff, caso ele pergunte, não se preocupe, darei um jeito - disse Lucrecia enquanto colocava o menino dentro da cocheira.
- Por que está me ajudando? - perguntou Arthur achando que talvez não devesse.
- Se o filho que eu tive estivesse vivo hoje, ele teria sua idade - respondeu Lucrecia sorrindo.
- Eu queria saber por que minha mamãe me deixou quando eu era bebê, embora o meu papai sempre diga que mesmo eu não tendo nascido da mamãe sempre vou ser filho deles - disse o pequeno abraçado com Lucrecia enquanto o cocheiro Jules cumpria as ordens da patroa.
Lucrecia não pôde evitar uma expressão de surpresa quando soube que o pequeno Arthur era filho adotivo de Christopher e Louise Raven: - Então você sonha em reencontrar seus pais verdadeiros e saber por que você foi deixado, eu imagino, afinal todos nós queremos saber nossas origens.
Ao mesmo tempo, o falso circo estava se alimentando e conversando sobre como procederiam na cidade, quando Wilbur, recebendo uma mensagem telepática, disse muito surpreso: - Lucrecia Witcherwell está levando Arthur para um local que ela conhece, embora eu não entenda porque ela o está ajudando.
Os membros da Irmandade que ali estavam quase se engasgaram com a comida ao ouvirem o que o bruxo de cãs tinha dito enquanto Maria e Anton imaginavam com uma mulher tísica estaria em condições de ajudar alguém.
- Arthur acabou de me dizer que Lucrecia é uma vampira do bem e que se o bebê dela estivesse vivo, teria a idade dele - falou Wilbur tão surpreso que as palavras saíam em separação silábica.
Lauzun disse com desconfiança: - Por acaso existe algum vampiro que seja do bem? Sinceramente, não acredito nisso até que me provem o contrário.
- Você pode não acreditar meu amigo franco-austríaco, mas muitos vampiros são do bem e não bebem sangue humano, isso graças a um grande e bondoso vampiro chamado Carlisle Cullen - respondeu Wilbur, que a noite iria escrever uma carta para o amigo morto-vivo da Inglaterra.
- Vampiros do bem, Carlisle Cullen?! - Harold perguntou espantado e os outros, sendo Lauzun o mais espantado, imediatamente olharam como se tivessem visto um animal raro.
- Cullen é muito conhecido entre os bruxos por ter difundido a filosofia de que os humanos não devem ser apenas um alimento para os vampiros e que o equilíbrio entre as raças é muito importante para a manutenção do mundo tal como ele é - sorriu Wilbur ao falar do vampiro britânico que desde o século 17 aparentava ter 23 anos.
Klemens olhou para Wilbur e perguntou com sua curiosidade médica: - Mas não é o sangue humano que mantém os vampiros com a aparência cheia de vida?
- Essa e algumas outras teorias são uma mentira sem tamanho, inclusive a história de que todo o vampiro possui colmilhos grandes, pois Carlisle e outros não os possuem, embora existam os que os têm, mas isso varia muito, embora essa variação nunca tenha sido explicada - respondeu Wilbur olhando todos como se fosse professor de uma escola primária.
- Entre essas mentiras se inclui a de que uma pessoa pura mordida por um vampiro morre e a não pura se transforma? - perguntou Maria lembrando o que seu noivo contou a ela, de ter quase sido mordida por Karnstein enquanto estava desacordada no andar superior do castelo.
- Absolutamente certo minha bruxa pirocinética, ele muito bem poderia ter transformado você em vampira se quisesse, mas pelo que eu fiquei sabendo ele queria mesmo era matá-la - Wilbur respondeu olhando de canto para a jaula de Karnstein, que estava acordado e com cara de poucos amigos, sem dizer uma única palavra desde que haviam saído do vilarejo.
Apenas de provocação, Maria olhou para a jaula e perguntou: - Não vai falar em sua defesa ou desaprendeu a falar?
- Naquela vez, eu teria te transformado junto com a Frieda, mas agora, eu irei matá-la junto com Anton e esses ridículos quando eu sair daqui - respondeu Karnstein já recuperado de seus ferimentos, mas sem ter como escapar de onde estava.
- Daqui você vai direto para Azkaban e lá vai passar toda a eternidade, sofrendo até desejar estar morto! - exclamou Wilbur furioso com a resposta desaforada do vampiro.
- Esse filho da puta merece é uma estaca! - berrou Lauzun.
Harold fez um sinal de interrupção e perguntou: - Quanto a Lucrecia, dá para acreditar mesmo que ela é uma vampira do bem? E ainda, foi Frieda quem a mordeu?
- Lamento dizer, mas Klemens estava certo quando disse que Frieda mordeu George e ainda, ela vampirizou Lucrecia, mas Arthur me disse telepaticamente que ela se arrependeu de ter permitido isso, mas que foi assim que ela pôde ajudá-lo a fugir, porque as correntes que prendiam os tornozelos do menino eram fortes demais - respondeu Wilbur ainda muito surpreso com a atitude benevolente da irmã de George Witcherwell.
Harold lembrou-se que a agora vampira Lucrecia Witcherwell tinha sido casada e havia engravidado 12 anos antes, mas que o bebê tinha morrido sete meses após nascer, o que deixou a rica inglesa de luto por muito tempo. Porém, o holandês desconfiava de algo sobre a morte do bebê Wenzel Witcherwell McCameron, afinal, ninguém além do pai, que abandonou Lucrecia e foi misteriosamente assassinado um ano depois do “óbito” da criança, tinha visto o corpo.
- Meu Deus, como George pôde ser tão cruel a ponto de permitir isso?! - perguntou Klemens em seu tom falsamente feminino.
- George terá seu merecido castigo quando o encontrarmos, Wolff vai se arrepender do dia que nasceu e Frieda, ah, essa vagabunda também irá para o inferno! - respondeu Wilbur, profundamente revoltado com tudo o que soubera e vira até ali.
Enquanto isso, Jules, o cocheiro corcunda, chegava com Lucrecia e Arthur ao porto da cidade, de onde se tinha acesso ao secreto mundo bruxo, do qual Lucrecia tinha ficado sabendo ao testemunhar uma mulher entrando por uma passagem secreta em Londres quando era menina.
- Vou te levar a uma casa que eu conheço e lá você vai ficar até eu conseguir buscar suas irmãs e sua mãe e daqui todos vocês irão de volta para onde vieram - disse Lucrecia, conduzindo o menino pela grande Wien Hexe (Viena Bruxa), cujo acesso ela conseguira porque seu criado Jules era um bruxo mestiço, algo do qual George não sabia.
- Mas como você vai conseguir, o Wolff prendeu todos em lugares diferentes e ainda, ele é muito poderoso, vai te matar se souber que você nos soltou! - respondeu Arthur apavorado.
- Não se preocupe Arthur, eu encontrei a localização de suas irmãs e sua mãe quando fui pegar sua varinha no quarto do Tutchenko, agora é só eu e Jules irmos pegá-los e vocês todos estarão a salvo e quanto ao Wolff, fique calmo - disse Lucrecia, disposta até a matar o bruxo do mal se fosse o caso.
Já no final da Wien Hexe, Lucrecia, Jules e Arthur entravam em uma casa que parecia uma pensão, mas que na verdade era o bar “Velho Burgomestre”, onde os bruxos daquela cidade se reuniam para beber e conversar.
O cocheiro corcunda se aproximou do balcão e perguntou ao atendente se havia por acaso um quarto disponível e ele respondeu que sim, sorrindo ao reconhecer o bruxo e indo chamar o dono do bar ao que a vampira ruiva Lucrecia disse: - Você vai ficar aqui e vai melhorar, mas sob nenhuma hipótese saia enquanto eu não trouxer sua mãe e irmãs.
Arthur assentiu com a cabeça e em seguida Lucrecia puxou Jules pelo braço dizendo: - Ainda temos trabalho a fazer!
Juntos, eles foram onde se encontravam presas as irmãs de Arthur, Corinna e Elizabeth e com a ajuda de uma fatal picaretada dada por Lucrecia na parte de trás na cabeça do guarda bruxo, as soltaram e puseram sãs e salvas na carruagem , embora machucadas pelas correntes que as prendiam, seguindo para o local em que estava presa a mãe dele, Louise e lá chegando, soltaram-na com a ajuda do inesperado dom musical de Elizabeth, que fez o guarda ficar completamente hipnotizado.
Porém, enquanto saíam, acabaram surpreendidos por Klaus Wolff, que furioso com a ousadia dos dois que haviam soltado as três, sacou a poderosa varinha para matar eles e mais as ex-prisioneiras, esquecendo completamente o acordo com Christopher Raven, quando de repente, Lucrecia saltou rapidamente e com toda a fúria no pescoço dele, arrancando um pedaço deste com uma forte mordida, fazendo jorrar muito sangue, o que causou morte quase imediata para o bruxo das trevas, deixando as três bruxas Raven apavoradas com tal cena.
- Perdoem-me, mas eu não tive escolha, éramos nós ou ele - disse Lucrecia saindo de cima do cadáver e observando-o, ao mesmo tempo em que usava um lenço para limpar o sangue que escorria pela boca, queixo e pescoço.
Ao mesmo tempo, as três bruxas observavam impressionadas que uma mudança havia acontecido ao cocheiro de Lucrecia: antes corcunda e muito feio, ele havia se transformado em um belo rapaz. Ao se virar para ordenar que Jules levasse todos para o “Velho Burgomestre”, surpreendeu-se ao vê-lo tão diferente, mesmo reconhecendo-o pelas roupas de cocheiro.
- Como...?! - Lucrecia não pôde terminar de perguntar, tamanho seu espanto.
- Se Klaus Wolff morresse, segundo o que um sábio bruxo me disse anos atrás, a maldição que ele jogou em minha mãe enquanto ela me esperava terminaria e como você o matou, ela acabou - disse ele sorrindo para Lucrecia.
Louise olhou o rapaz atentamente e disse impressionada: - Todo o mundo bruxo europeu sabia do que aquele biltre fez com sua pobre mãe quando seu pai recusou-se a ajudá-lo, jogou uma horrível maldição em sua mãe, te transformando em um corcunda quando você fizesse 15 anos e agora, com ele morto, tudo voltou ao normal em sua vida graças a Deus.
- Não só na vida dele, mas também na de muitos outros que foram vítimas desse desgraçado - disse Corinna furiosa, cuspindo no agora cadáver Klaus Wolff.
- Corinne, não faça isso, é um sacrilégio! - disse Elizabeth horrorizada.
- Melhor irmos antes que outros percebam a confusão e venha uma multidão para cá - disse Lucrecia fazendo sinal para que todos fossem para a carruagem.
Enquanto Jules levava Lucrecia para casa depois de deixar todos os Ravens no bar bruxo da Wien Hexe, George estava enlouquecido de fúria e Frieda estava aos berros por saber que Arthur Raven tinha escapado do cativeiro, perguntando quem o tinha ajudado a fugir e jurando que quando descobrisse, o culpado pagaria com a vida.
- Patroa, eu posso jurar que deixei tudo muito bem trancado, inclusive eu acorrentei o corpo todo dele hoje! Até mesmo mostrei para a senhora! - disse Tutchenko, que como Frieda, estava furioso.
- Eu vi, não precisa ficar se justificando, afinal eu sei que você nunca o soltaria, mas eu quero saber quem foi, porque sozinho aquele pequeno sacripanta não escaparia! - Frieda continuava berrando.
- De repente algum amigo bruxo do olhinho azul bretão veio salvar o menino se aproveitando que não tinha ninguém por aqui, afinal, dizem que tem magia de tudo que é coisa - disse Sukenna dando uma sugestão.
- A Sukenna pode estar certa, mas, como isso aconteceria se ninguém sabia que ele estava aqui? - Frieda parou os berros para que sua linha de pensamento funcionasse.
Todos ficaram em silêncio até que George disse: - Esse garotinho deve ter se comunicado com alguém, só pode ter sido isso, porque uma vez ouvi dizer que existem bruxos que são telepatas!
Tutchenko e Sukenna ficaram espantados enquanto Frieda pensava nos momentos em que esteve com o prisioneiro ou que o tinha visto, quando se lembrou: - Houve um dia em que esse sacripantazinho estava falando sozinho, como se estivesse se comunicando com alguém! Agora entendo, certamente ele deve ser telepata e estava usando a mente para se comunicar e conseqüentemente conseguir alguém que o resgatasse!
- Eu devia tê-lo mantido dormindo, eu devia! - gritava George se sentindo um idiota por não ter percebido o dom do menino.
- Agora não adianta mais nada, o problema agora é quando o Wolff souber disso, vai ficar furioso conosco, afinal você se comprometeu a deixá-lo aqui enquanto o acordo secreto entre ele e o tal Raven não se concretizasse - disse Frieda enquanto sentava garbosamente em uma cadeira forrada de veludo.
- E a mãe e as irmãs do menino? - perguntou Tutchenko.
- Certamente que foram ou ainda serão resgatadas, então temos que alertar o Wolff enquanto ainda dá tempo, porque ninguém é louco de recuperar alguém sem ter um plano para tal, embora tenha as localizações que roubou das coisas do Tutchenko... - Sukenna dizia, quando de repente ouviu a sineta da porta.
Atendendo a porta depois de ouvi-la, Sukenna o cumprimentou e perguntou o que ele desejava.
- É aqui que moram Sir George e Lady Frieda Witcherwell? - perguntou o homem, cuja roupa dizia que ele era algum criado.
- Sim, eu sou Sir George e esta é minha esposa, Lady Frieda - respondeu o britânico sorrindo ao escutar o criado chamando a vampira de “Lady”.
- Infelizmente, o motivo de minha visita é comunicar-lhes que meu patrão foi assassinado esta tarde - disse o criado com extremo receio e em tom triste.
O espanto tomou conta de todos quando o assassinato de Klaus Wolff foi anunciado pelo criado ao que George perguntou: - Como isso aconteceu?!
- Pelo ferimento terrível que havia no pescoço dele, só pode ter sido um vampiro e pelo visto, o senhor Wolff não teve sequer tempo de dizer o feitiço que pensava em proferir, porque a varinha estava na mão, mas sem qualquer traço de magia - respondeu o criado.
- O vampiro que cometeu essa infâmia certamente deve ser muito rápido e ainda, esse desgraçado faliu pelo menos um quarto dos meus negócios! - exclamou George enfurecido não apenas pelo assassinato do amigo, como pelo fato de que ele era o único contato comercial que ele tinha em parte dos estados germânicos.
- Com essa parte o senhor não precisa se preocupar, o patrão lhe deixou bons contatos nos estados germânicos e ainda, como ele não tinha filhos ou família, dividiu a herança dele entre eu e vocês: eu, ficando com a conta que ele tinha no banco e você e sua esposa ficando com a casa, os móveis e as jóias que ele tinha - disse ele tirando do bolso uma carta-testamento feita pelo bruxo e dando a George, cuja leitura feita pelos perspicazes olhos dele confirmou a fala do criado, que em seguida deu as condolências e anunciou sua partida.
- Deixe que nós o levemos ao portão, meu bom senhor - disse Frieda sorrindo e dando o braço ao marido, deixando muito claro aos olhos dos criados o que faria.
Os dois riram levemente e se despediram do criado sorrindo e passados quase vinte minutos, Frieda e George voltaram limpando os lábios sujos com um lenço e com a vampira dizendo: - O criado podia estar um pouco passado da idade, mas o sangue estava delicioso.
- Você soube mesmo como unir o útil ao agradável, nós estamos bem alimentados e temos toda a fortuna do Wolff só para nós - George riu muito.
- Aquele criado iria certamente gastar toda a conta do ex-patrão com bebidas e mulheres, é isso que os pobretões idiotas fazem quando ganham uma herança, brevemente ficam pobres de novo, não sabem tirar o melhor proveito do dinheiro, por isso os ricos ficam cada vez mais ricos! - ria Frieda terminando de limpar os lábios.
Em seguida George ordenou que Tutchenko se livrasse do corpo do criado de Wolff e imediatamente o siberiano foi cumprir as ordens do patrão enquanto Lucrecia pedira a Jules que voltasse uma última vez para a casa de George, de onde, de dentro da carroça, se despediu com um aceno e um pensamento:
- Pelo meu filho que Deus levou tão cedo, sua puta amaldiçoada, juro que você irá pagar cada mau trato a que submeteu o pequeno Arthur! E George, me perdoe, mas você carregará esse fardo sozinho agora.
O som das rodas da carroça que longe desejava ir misturado ao vento que sacudia as cortinas da carruagem parecia dizer que finalmente o destino estava conspirando contra a tão perversa vampira que tão garbosamente e luxuosamente se gabava de sua tão bela sorte.

terça-feira, 28 de abril de 2009

100 escovadas antes de ir para a cama

Baseado no filme "As noivas do vampiro" (1960)

Os silêncios são sonoros, eu penso enquanto escovo os cabelos ruivos mais uma vez 100 vezes antes de dormir, nunca conseguindo esquecer o grande infortúnio que se abateu em minha vida há cinco anos.
Essa frase ecoa em minha mente e penso o quão parece absurda, mas ela não o é, pois em meu quarto o silêncio é tão grande que posso ouvir até as asas de uma mosca batendo, ruído que não pode ser ouvido diante de tantos outros que são mais altos à noite, como os dos grilos. Tudo que eu queria era voltar atrás, evitar que isso tivesse acontecido, quem sabe se eu não tivesse escutado o seu chamado, o soltado daqueles grilhões dourados, por ele me apaixonado e dele me tornado noiva, talvez eu não me sentisse o pior dos seres humanos.
Também, me sinto a responsável pela morte de pessoas que nada tinham a ver com aquela amaldiçoada história de alguém preso na própria casa por representar uma ameaça às vidas de muitas outras.
Eu faria qualquer coisa para esquecer esses fatos tristes, mas também faria para tê-lo de volta, pois, apesar de tudo, eu ainda o amo, com toda a minha alma e o meu coração. Por isso me sinto tão dividida entre o sagrado e o profano, o bem e o mal, a moral e o imoral, a carne e o espírito, tantas antíteses que nem consigo contá-las, tantas que minha sanidade parece me fugir em alguns momentos.
Sinto que ele retornou, porém não me procurou ainda. Parece que o homem, ou vampiro, que amo não tem coragem para me encarar depois de tudo o que aconteceu, sinceramente eu não compreendo, ele me parecia tão frio e cruel na hora de cometer seus atos e agora, não possui a honestidade para pelo menos me dar alguma explicação.
Faltam 20 escovadas ainda para terminar o ritual feito sempre há mesma hora antes do sono e de repente, escuto o vidro da janela de meu quarto quebrando, exatamente como cinco anos atrás.
Olhando para trás, eu novamente o vejo tão loiro e tão lindo como no primeiro dia, seus olhos castanhos conservando o mesmo olhar vampiro daquela época e sua altivez sendo a mesma, nada tinha mudado, assim como eu.
Corro até os seus braços e não hesito em aceitar o beijo que ele dá em meus lábios, aquele que reinicia nosso amor e une os nossos corações para todo o sempre, sem se importar com as tantas antíteses que cercam a vida de um ser humano.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Frieda, a Vampira - Volume 1: A nobreza despida (1814 - 1854) - Capítulo 8: Preparativos

Dia seguinte na vila bruxa-trouxa, a Irmandade, Anton, Maria e alguns bruxos liderados pelo padre Constantino, incluindo o ainda machucado bruxo advogado Dr. Christopher Raven e seu criado Bernard, estavam reunidos na pequena praça para formar a equipe que iria resgatar a família do advogado bruxo onde queria que ela estivesse.
O caos verbal estava presente quando Harold fez sinal para todos se calarem e disse: - Ontem procurei alguém que tivesse o dom da telepatia e encontrei este, Wilbur Dulroney, que mora no fim do vilarejo e me disse que irá ajudar nas buscas - apresentando um homem que aparentava ter pouco mais do que 65 anos e tinha a cabeça branca como a neve do inverno daquelas paragens.
- Digo com segurança que encontrarei a família do Dr. Raven esteja onde ela estiver - falou Wilbur sorrindo e disposto a ajudar.
Todos ficaram felizes sob os olhares esperançosos dos moradores, que se solidarizaram com a situação de Raven apesar de saberem que ele trouxera de volta o vampiro Karnstein.
Em seguida, o bruxo Dulroney se concentrou profundamente e ficou completamente imóvel durante vários minutos, deixando os irmãos e outras pessoas olhando curiosas para saber o que ia acontecer quando repentinamente, Wilbur abriu os olhos e disse:
- Encontrei o menino Arthur, ele está em Viena, na casa de um indivíduo chamado George Witcherwell e, além disso, o menino comunicou-me telepaticamente que o resto da família está presa em um lugar que ele não sabe.
- Até isso esse filho de uma meretriz teve coragem de fazer?! - exclamou Levine enfurecido com o ponto em que a maldade de George chegara.
- Meu Deus do céu, eu sempre soube que George era mau caráter, mas nunca imaginei que fosse capaz de deixar uma criança em cárcere privado acobertando um bruxo das trevas! - disse Ártemis Winchester com espanto e ali presente depois de dias ausente devido a uma forte gripe.
- Vindo dele pode se esperar tudo, eu não duvido até que Frieda já tenha mordido o desgraçado! - exclamou Klemens extremamente bravo.
- Mais do que nunca quero dar um tiro no peito daquele maldito! - gritou Harold disposto a se vingar do irmão traidor e dizendo em seguida: - Vire sua língua do avesso Klemens, três vampiros já é demais!
- Por Nossa Senhora, quem é esse homem que todos tanto odeiam?! - perguntou espantado Wilbur.
Lauzun tomou a palavra e contou tudo que acontecera até ali, o que deixou Dulroney ainda mais surpreso que antes: - Por luxúria, ódio e vingança, algumas pessoas cometem barbaridades que até o próprio Deus é capaz de duvidar.
Agora que sabiam onde estava o filho caçula de Raven, eles teriam de ir até Viena para resgatar o menino e o resto da família do bruxo das leis, porém Klemens falou com espanto: - Como vamos viajar para Viena nessa altura dos acontecimentos, já imaginaram se aquela prostituta ou aquele calhorda nos reconhecem?! Nós estaremos condenados, além do mais, uma viagem daqui até a capital do império demora pelo menos um mês ou mais!
- Ora, é para isso que usarei meus cavalos alados! - exclamou Wilbur com felicidade e em seguida dizendo: - Eles encurtarão nossa viagem em pelo menos três semanas, assim poderemos resgatar mais rápido a família do Dr. Raven e evitar que Frieda os delate ao Imperador!
- Foi Deus que permitiu que o senhor viesse com nossa caravana! - disse o padre Constantino com alegria.
- Ele não só me permitiu isso como me deu o privilégio de conviver com o bruxo mais santo desta terra! - retribuiu sorrindo Wilbur.
Todos comemoraram e muitos camponeses se ofereceram para fazer parte do grupo de resgate com suas armas e foices, porém Lauzun disse: - Vocês não devem se arriscar por nossa causa, pois fomos nós que causamos esse problema todo e somos nós que devemos resolvê-lo.
- Como assim problema?! O que fizemos foi para livrar nossa terra do mal! - exclamou Wolffenbüttel ouvindo aquilo.
- Em todos esses dias pensei no que fazíamos quando Gustav ainda era o líder e cheguei à conclusão que combatíamos o mal pelo lado errado, matamos as pessoas erradas e poderíamos ter evitado o que está acontecendo agora se não tivéssemos ouvido tanto o Weil - respondeu Lauzun com absoluta firmeza.
Vários companheiros do austríaco ficaram indignados, pois além de se sentirem insultados com aquelas palavras, não aceitavam aquela “invasão” de bruxos e menos ainda que os outros conservadores aceitassem de bom grado a liderança do liberal Harold, as mudanças que este colocara e o curto discurso de arrependimento de Lauzun, especialmente Wolffenbüttel, desejando estrangulá-lo.
Enquanto isso Karnstein comia o pão que o diabo amassou, preso e amarrado em uma cela mágica que deixava o poder dele enfraquecido ao mesmo tempo em que vários camponeses iam até a cadeia só para rir dele e humilhá-lo, se aproveitando da penosa condição em que ele se encontrava, sequer podendo dizer algo em sua defesa.
Na casa paroquial, a Irmandade, Anton Hoffer e o Padre Constantino reuniram-se com Wilbur, Raven e Bernard para acertar os últimos detalhes da viagem que serviria para resgatar a família raptada do advogado bruxo.
- Como disse àquela hora, uma viagem para Viena nessa altura dos fatos vai nos pôr em perigo! - disse Klemens querendo dissuadir todos da partida.
- É para isso que se usará a magia dos bruxos do bem, para evitar qualquer tipo de perigo e ainda por cima, encurtar nossa viagem - falou Harold rindo.
Klemens não teve como contra-argumentar enquanto Wilbur falou: - Além de usar meus cavalos alados, nós precisaremos de disfarces para evitar incômodos em Viena, pois como disse o irmão, George ou Frieda podem nos reconhecer, então temos de evitar ao máximo os problemas - e em seguida completou: - Também, temos um importante aliado em Viena, um Congresso que o Príncipe Von Metternich, assistente do Imperador, organizou para recolocar as famílias reais de volta em seus tronos, o que nos deixa em grande vantagem em relação ao George, pois o biltre não tem como falar com o Imperador.
Todos ficaram surpresos, até mesmo o padre e logo depois comemoraram, começando os preparativos da viagem sob os olhares dos camponeses que ficavam ouvindo atrás das portas para falar aos outros que tinham algo a mais para fazer.
Faltava um bom tempo para o casamento de Anton e Maria, que estavam mais felizes do que nunca e a bruxa mais que tudo queria se vingar da irmã gêmea Frieda por todos os apuros pelos quais havia passado por conta do péssimo caráter desta.
Na capital do Império Austríaco, Frieda tomava um delicioso chá com a cunhada Lucrecia contando sobre a inesperada chegada do Imperador perto dela dois dias atrás.
- Não posso crer nisso, realmente você tem muita sorte! - exclamou Lucrecia aos risos.
- E como tenho minha cunhada e dela usarei para conseguir tudo o que mais quero: ver a Maria, Anton e a Irmandade inteira na forca! - disse Frieda com muita maldade na voz e no olhar.
Lucrecia novamente riu enquanto o Marquês de Munchaünsen a olhava de sua casa, escutando espantado cada palavra que ela dizia: - Ah, esta mulher é um absoluto espetáculo de inteligência e beleza! Como pode existir mulher tão bela e ao mesmo tempo tão genial?!
- Perdoa minha interferência, senhor, mas ela pode ser uma criatura das trevas, pois não é possível que ela tenha conseguido deixar o Imperador tão louco assim, pois se o conheces bem, sabe que ele não é de se encantar facilmente pelas pessoas - falou o criado do nobre com certo espanto, porém completando com algo talvez óbvio demais: - Mas, a beleza nos cega realmente.
- Sabe que você pode ter razão, como não parei para ver isso antes? E se ela for mesmo isso que você diz, então eu preciso seduzi-la de qualquer jeito, afinal nela pode estar meu maior sonho: ser imortal! - exclamou feliz o marquês, cujo verdadeiro nome era Wenzel Von Hohenzollern, planejando durante uma hora um suntuoso jantar e depois subindo ao quarto para escrever um convite para George Witcherwell e a “esposa”, o que deixou o criado horrorizado.
Ao chegar ao seu quarto, depois de demorar a subir as escadas, ele se deparou com uma inesperada visão: a vampira Frieda Gelhorn deitada completamente desnuda em sua cama e as roupas desta cuidadosamente dobradas em uma cadeira ao lado.
- Não posso crer em meus olhos: você aqui, em minha cama! - exclamou Wenzel com espanto.
- Depois do que fez por mim dois dias atrás, era o mínimo que eu podia fazer para retribuir - disse ela rindo, se virando de bruços e roçando uma perna contra a outra em um gesto sensual.
- Você chama isso de mínimo?! É o máximo! - disse ele com absoluta alegria e se aproximando da vampira nua.
- Então tire a roupa e deite aqui comigo, me dê prazer - falou Frieda rindo e se virando de frente para ele, louca para ser possuída pelo belo marquês.
Ele despiu-se por inteiro rapidamente e deitou-se sobre o corpo dela, não poupando nenhuma parte dele de seu devasso desejo, lambendo, beijando e chupando sem parar um minuto sequer ao mesmo tempo em que ela não parava de gemer envolta nos braços dele. Além disso, permitia que ele lambesse seu corpo todo e fizesse o que bem entendesse.
- Continue - ria ela se virando de um lado para outro conforme ele ia, beijava, chupava e lambia.
- Oh Frieda, não sei como pôde ter vivido naquele fim de mundo do Vilarejo de Karnstein, é aqui seu lugar e como George já me disse, você é uma deusa, merece ser amada e adorada por todos, além de ganhar muitos presentes é claro - riu o nobre lambendo o pescoço dela e em seguida pegando em uma gaveta uma caixa repleta de jóias feitas em pérola.
O presente do riquíssimo nobre mostrava seu poder absoluto sobre os homens que dela se aproximavam e ela usaria aquele poder para completar sua vingança, mas também para ter ainda mais do que já tinha.
Eles continuavam com o sexo com tudo que tinha direito, até mesmo coisas mais devassas, ali, sem desconfiar que na casa de Frieda, Sabine, aproveitando a ausência de George, o descanso de Lucrecia e a saída de Tutchenko, arrumava suas coisas para ir embora dali para sempre e denunciar a Irmandade tudo o que a vampira planejava até mesmo o que ela fazia naquele momento no quarto do marquês, afinal ela sabia tudo o que a patroa fazia e dizia.
Logo que terminou de arrumá-las, Sabine saiu pela porta dos fundos e pulou o muro de trás da casa em direção à rua onde iria pegar carona com um mascate que vendia coisas por todos os lados até fora da cidade, em um matagal, onde ficaria escondida caso George fosse procurá-la. Andando pela rua, Sabine avistou Tutchenko e tratou de se esconder para que ele não a visse, afinal ela sabia que alguns dias atrás Frieda pediu que o criado a vigiasse, pois estava muito desconfiada.
- Que o Senhor me ajude neste momento! - orava Sabine com desespero querendo que o siberiano fosse logo embora.
Sabine teve de ficar parada quase meia hora e completamente quieta para que Tutchenko não percebesse que ela estava ali perto dele, mas isso em compensação fez a fuga dela dar completamente certo e logo ela chegar até o lugar onde estava o seu amigo mascate que iria lhe dar a tão desejada carona.
- Como demoraste moça, achei que tinha desistido! - exclamou o comerciante que logo em seguida disse: - Mas você sabe que posso levá-la apenas até quatro léguas daqui.
- Nunca desisto do que quero e além do mais, sei disso muito bem, não se preocupe - falou Sabine ansiosa.
O mascate conduziu a carroça pela rua durante duas horas até sair completamente da cidade e disse vendo a francesa nervosa:
- Fique calma Sabine, eles não têm como vir atrás de nós pelo caminho que usei, pois pouquíssimos conhecem este.
- É, mas vindo do George Witcherwell, da Frieda Gelhorn ou do Tutchenko, eu espero tudo - disse Sabine ansiosa.
- Sabine, acalme-se, nada de ruim irá acontecer conosco, Deus está nos guiando - falou o mascate calmamente e seguindo viagem.
No vilarejo que se tornava vila de bruxos e trouxas, Wilbur e o padre Constantino, na grande casa do irmão Levine, preparavam detalhadamente a viagem enquanto Harold, Lauzun e alguns de seus companheiros, incluindo Klemens e Wilhem, vestiam as roupas do disfarce que eles usariam em Viena, membros de um circo itinerante.
Ao mesmo tempo, Bernard e o advogado Christopher Raven se encarregavam de enjaular um enfraquecido Conde Karnstein.
- Só voltarei a sorrir no dia em que ver minha família outra vez e este infeliz com uma estaca atravessada no peito novamente! - exclamou Raven enquanto amarrava cordas mágicas nas mãos e pés do vampiro Karnstein para garantir que ele não fugiria.
- Penso o mesmo patrão - disse Bernard louco de vontade de dar um tiro no vampiro.
- Não vou me vestir de cigana, sou homem! - gritou Klemens não aceitando o traje feminino que Wilbur oferecia a ele.
- Deixe de conversa Klemens, isso é pelo bem do vilarejo e nosso, pense nisso, quando voltarmos, você será um herói e ninguém vai rir por ter se vestido de mulher, todos reconhecerão seu esforço para ajudar a evitar uma tragédia. Além disso, você é o mais magro de todos e isso ajuda muito no disfarce - disse o bruxo na tentativa de convencer o irmão, cujos cabelos ruivos, olhos verdes e rosto sem pelo algum misturado com os lábios finos o faziam quase parecer uma mulher.
O alemão deu uma bufada e disse extremamente furioso: - Se é pelo nosso bem e do vilarejo, eu me visto com esse traje horrível!
Todos estavam quase prontos enquanto Klemens começava a se vestir, ainda que não gostasse do conjunto que havia lhe sido dado: uma blusa de mangas folgadas branca, um colete preto com vinho e uma saia comprida vermelha, além de um par de botas marrons de cano comprido e uma peruca ruiva que compunham o disfarce.
Depois de prontos, todos esperavam Wilbur dar o próximo passo. De repente, o bruxo de 65 anos fez uma magia silenciosa e um traço colorido surgiu da varinha do bruxo, dando voltas em todos durante um minuto até que Wilbur disse: - Já podem olhar-se no espelho, porém não se reconhecerão.
Todos se enxergaram e espantaram-se com o que a magia era capaz de fazer com a aparência das pessoas, já que eles estavam completamente diferentes do que de fato eram e também, suas vozes estavam irreconhecíveis, o que facilitaria a circulação deles por Viena. Klemens, ao falar e ver que sua voz estava incrivelmente a de uma mulher, nem ousou comentar, mas praguejava mentalmente.
- Se eu não tivesse que cuidar da paróquia aqui e zelar para que os ainda mais conservadores que não concordam com o Harold e o Lauzun não façam bagunça, eu iria com vocês, então, que Deus os abençoe e acompanhe nessa viagem - falou o Padre Constantino sorrindo.
- Fique com Deus padre Constantino, saiba que nós todos adoramos o senhor e agradecemos a Ele todos os dias por você ter vindo para cá! - falou Harold em nome de todo o grupo ali presente, que concordava plenamente com as palavras do líder holandês.
Depois de se despedirem do padre, eles saíram pela porta dos fundos e viram Anton e Maria, devidamente disfarçados, esperando na carroça pronta com os cavalos, demonstrando que queriam ir junto e juntos.
- Esperem um pouco, vocês não podem viajar juntos, não casaram ainda - falou Lauzun colocando seu conservadorismo em prática.
- Queremos ajudar e não vamos desistir - disse Maria agarrada ao braço do noivo.
- Quero pessoalmente dar cabo de Frieda, ela quis me matar, agora eu vou matá-la, pela minha honra - disse Anton com firmeza, demonstrando que também tinha mudado: tornara-se muito mais irascível e não permitiria nunca mais que o pisassem ou enganassem.
Todos se olharam por alguns minutos e acabaram concordando, afinal, um homem que se prezava limpava a honra quando esta era manchada e Anton se sentia sujo por ter anteriormente se apaixonado pela vampira que agora odiava incondicionalmente.
Dulroney, já na carroça com o circo móvel de mentira junto com Harold, Lauzun, mais nove membros da Irmandade, todos arrependidos de atos passados, Christopher, Bernard, Maria e Anton, deu dois assovios e bateu palmas para que os cavalos alados batessem as asas e voassem com eles e as coisas que carregavam para a longa viagem.
De repente, os eqüinos alados levantaram o veículo do chão, deixando todos surpresos, alguns até com medo de caírem, sendo tranqüilizados por Harold: - Fiquem calmos. Wilbur disse que os cavalos comportam quanto peso for necessário.
- O inteligentíssimo holandês tem razão, pois eles são considerados as melhores criaturas mágicas de nosso mundo depois dos trestálios! - exclamou Wilbur feliz.
Todos ficaram mais calmos e seguiam o trajeto aéreo conversando, torcendo para que nada atrapalhasse a viagem, afinal ela seria decisiva para evitar duas tragédias ao mesmo tempo.
Prevenido, Wilbur cobrira o circo com um feitiço que deixava a diligência voadora invisível aos olhos dos viajantes que estavam no solo e agora, não havia mais problemas para com a viagem.
Em Viena, Frieda estava furiosa com a inesperada ida de sua criada Sabine e falava com Lucrecia: - Não posso acreditar que ela tenha ido embora dessa maneira, eu nunca lhe dei motivos para fazer algo semelhante, apesar de tudo sempre a paguei muito bem e é assim que ela me retribui?! Ingrata, é isso o que ela é!
- De repente ela resolveu voltar para a terra dela, afinal de contas eu sei que lá ela deixou pais e dois irmãos mais novos, quem sabe até ela até não tem um pretendente por lá - disse a irmã de George fazendo bordados.
- Não posso deixar de admitir que seja verdade, mas você acha que naquela porcaria de lugar há homem que preste? - falou Frieda com extremo desdém e frieza e em seguida dizendo aos suspiros: - O único homem macho daquelas paragens é o George, que trocou a sisudez da Irmandade por meus calorosos beijos e meu lindo corpo - e se vangloriando da própria beleza enquanto penteava os longos e lindos cabelos castanhos.
Lucrecia, vampira como a cunhada, concordava e pensava: - Eu quisera ter apenas um quinto da sua beleza, assim eu estaria com a minha vida garantida!
Frieda se contemplava no espelho, ainda que sua imagem não aparecesse: - Não posso acreditar que tenho uma irmã gêmea tão fraca, boba, idiota e medrosa, eu sim é que sou maravilhosa, pois sei me impor com classe e domino tudo à minha volta!
Wilbur viajou durante seis dias, só descendo a diligência voadora para ele e todos comerem e fazerem as necessidades, além de trocar o condutor para evitar um cansaço demasiado.
No último dia do trajeto, quando já estavam a apenas 20 quilômetros da capital do Império Austríaco, Wilbur desceu a diligência em uma mata fechada e falou a todos: - A partir daqui, seguiremos viagem no solo, já que não queremos suspeitas em cima de nós.
- Mas aí iremos demorar pelo menos mais uma semana para chegar! - exclamou Harold.
- Com esses cavalos, chegaremos à capital em quatro dias a partir daqui, novamente fazendo revezamento de condutores para ninguém ficar muito cansado - respondeu o bruxo fazendo um feitiço para ocultar as asas dos cavalos e em seguida dizendo:
- Quando quiserem parar o cavalo por algum motivo, dêem um leve puxão no laço que eles param imediatamente.
Todos concordaram, continuando o trajeto no solo como um simples circo itinerante de ciganos, com direito a animais, mulheres barbadas, domadores, anões, cartomantes, mágicos e tantas outras atrações que faziam muitos se impressionarem.
Mais quatro dias parando para comer e fazer necessidades, além de mudar os condutores três vezes ao dia, finalmente o falso circo chegara a Viena, deixando aquela parte da Irmandade que estava lá impressionada com a grandiosidade e ritmo da cidade, já que eles estavam acostumados demais com o modo calmo demais do vilarejo, embora este estivesse mudando ruidosamente.
De repente, eles foram pegos de surpresa por alguns guardas do Imperador, que perguntaram: - De onde vocês vêm e o que trazem?
- Nós somos o Gran Circo Zaratruska vindo de qualquer lugar e indo para onde Deus quiser! - exclamou Harold usando o sotaque estrangeiro que Wilbur lhe dera magicamente.
Os guardas riram e revistaram o circo, vendo que só havia pessoas e artefatos típicos de um lugar assim e disseram: - Estão livres para irem onde quiser, só procurem um campo aberto para colocar as instalações, já que aqui não poderão ficar.
- Onde há um lugar assim? Preciso de um onde tenha acesso à comida e eu possa alimentar meus animais, já que eu tenho várias bocas para alimentar - disse Harold disfarçado de dono do circo e apontando as pessoas que ali estavam.
- Sigam à frente e dobrem à direita, lá há um terreno vazio e perto existem lugares onde poderão comprar o que precisam - disse o guarda apontando o caminho.
Seguindo à frente com o falso circo, Harold e todos ali presentes esperavam ansiosos os momentos de se vingar do casal mais devasso de todo o Império Austríaco e agora que tinham chegado à Viena, poderiam concluir com chave de ouro seu plano de vingança.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Frieda, a Vampira - Volume 1: A nobreza despida (1814 - 1854) - Capítulo 7: Uma guerra próxima demais

Na vila bruxa-trouxa, a manhã já havia chegado sem que ninguém desconfiasse do que Raven havia feito no castelo, pois a noite podia ser capaz de esconder de tudo, mesmo os piores atos.
Porém, a Irmandade já desconfiava de algo, visto que o advogado bruxo não estava em casa e isso soava estranho porque ele sempre acordava às 06h45min da manhã para começar seu trabalho e hoje, exclusivamente, ele não se encontrava em casa naquele horário.
- Mas que estranho o doutor Raven não estar em casa - falou Levine, o irmão do lenço branco.
- De repente, o bruxo doutor das leis saiu mais cedo para fazer alguma coisa - disse Lauzun pensativo.
- Se fosse isso, qualquer um de nós teria visto ele, afinal, somos os que acordam mais cedo aqui e o vilarejo ainda é pequeno apesar da chegada dos novos moradores - disse um irmão.
- O nosso irmão não deixa de ter razão, então o que será que esse sujeito foi fazer? - perguntou Hufflepuff muito desconfiado.
Padre Constantino, que acordava alguns minutos depois dos irmãos para seus afazeres religiosos e manuais, viu que os irmãos estavam discutindo e perguntou o que passava, recebendo a resposta de que Raven não se encontrava em parte alguma do vilarejo e pelo visto, passara a noite fora.
- Mas o que será que anda acontecendo com o doutor Christopher? Acho que essa saída que ele deu deve ter a com alguma coisa muito séria que está passando com ele e que este não comenta de jeito nenhum - falou o padre pensativo.
Todos ali ficaram espantados e acompanharam o pároco até a igreja para tratar melhor daquele assunto. Ao chegarem lá, se surpreenderam com a seguinte visão: Raven ajoelhado no altar chorando agoniadamente, como se estivesse pedindo perdão por algo muito grave que havia feito.
- Perdão meu Deus, perdão pelo meu pecado, te imploro Senhor, perdoa-me pelo mal imenso que causei, eu precisava salvar minha família das garras de um bruxo das trevas! - exclamava o advogado bruxo aos prantos e com os joelhos sobre pedras.
- Santo Cristo, o que estás fazendo doutor?! - perguntou o padre com espanto.
- Me castigando da pior forma por ter feito o mal que fiz! - respondeu Christopher se apoiando no padre, que lhe estendera a mão, para levantar-se do chão, pois seus joelhos sangravam e mal ele podia andar.
Os irmãos e o padre se perguntavam o que Raven fizera de tão sério e o criado Bernard respondeu: - Deixem-me levar meu patrão em casa e depois passarei com ele na igreja e contaremos tudo em detalhes.
- Acho melhor ter uma explicação plausível para isso que vimos! - exclamou Levine muito bravo.
Bernard nada disse e levou o patrão nos braços para casa, já que este mal parava de pé e implorava paz para seu coração amargurado.
As pessoas ali, incluindo o padre, não entendiam a estranha atitude de Raven enquanto tentavam achar um motivo para tal coisa, quando de repente, Harold chegou e perguntou o que se passava e porque o advogado estava machucado e chorando.
- Ainda não sabemos, mas saberemos quando eles virem aqui outra vez - respondeu Hufflepuff.
- Passei pelos dois quando vinha e notei algo esquisito, havia muita terra nos sapatos deles, o que me faz pensar que eles estiveram em um lugar muito plano e o único lugar assim que conheço é a volta do castelo Karnstein - disse o holandês dando em seguida uma olhada para trás e vislumbrando Raven e seu criado andando muito devagar.
Levine explodiu de raiva e exclamou: - O que aqueles dois foram fazer naquele lugar?! Fechamos com fortes correntes aquele antro de devassidão para nunca mais ninguém pôr os pés lá!
- Algo me diz que isso que eles foram fazer no castelo deve ter a ver com alguma coisa muito grave que está havendo com o bruxo das leis, tenho a sensação de que hoje nosso dia será cheio de surpresas - disse o líder da Irmandade fazendo a expressão de quem sentia uma sensação muito ruim.
Todos se calaram e acharam melhor trabalhar para esquecer a frase dita por Harold, pois não estavam preparados para receber outra notícia ruim, já bastava saberem que a vampira Frieda estava viva e que George traíra os irmãos por causa dela, a criatura mais devassa que haviam conhecido e para piorar, logo as tropas do Imperador Francisco I podiam chegar.
Ao mesmo tempo, Karnstein, já instalado na casa do advogado bruxo e fumando um charuto, ria feliz por estar novamente vivo e pronto para se vingar da Irmandade, porém, Christopher e Bernard não estavam nada felizes com a presença do vampiro, mas tiveram de abrigá-lo porque ele não podia se mostrar publicamente.
- Será que podes parar com tuas malditas gargalhadas ao menos por um minuto, imagina se alguém ouve?! Estaremos todos mortos! - exclamou raivosamente o criado homossexual enquanto cuidava dos joelhos machucados do patrão.
- Perdoa-me senhor Bernard, mas estou feliz demais por terem me trazido de volta - retribuiu educadamente o vampiro.
- Por mim, tinha te matado quando levantaste daquele túmulo! - respondeu Raven cheio de ódio.
- Não poderiam, pois quando estava escondido atrás de uma árvore lá fora, testemunhei aquela cena patética que protagonizaram naquela igreja ridícula e ouvi que sua família tem de ser salva, então, deveriam me tratar com um pouco mais de respeito, que eu mereço - disse Karnstein rindo levemente.
- Vá à puta que o pariu, não merece respeito algum depois de todos os atos que cometeu e um deles foi o assassinato de Gustav Weil! - exclamou Bernard furioso.
- Não tem o direito de falar assim comigo seu criadinho medíocre e além do mais, aquele Gustav era um fanático religioso besta que não deixava ninguém em paz com o puritanismo excessivo dele, alguém tinha de calar a boca daquele imbecil e também de todo o resto daquela Irmandade ridícula! - exclamou o vampiro exibindo as presas.
- Tentas fazer algo contra algum deles para ver se não te dou um tiro nas fuças! - gritou Bernard se levantando e dando uma forte coronhada no rosto do vampiro Karnstein com sua pistola, atirando o ser sugador de sangue quase um metro e meio longe devido ao impacto da pancada.
- Agora você verá o que é bom seu insolente! - exclamou o vampiro furioso e se levantando disposto a dar uma lição no criado.
- Rictusempra! - gritou Raven apontando sua varinha para Karnstein, que caiu atordoado no chão, como se um raio o tivesse atingido.
Levantando um tanto trêmulo depois de um minuto, o vampiro perguntou olhando o advogado com espanto: - O que é isso, como me fez tombar ao chão dessa forma?!
- Para tua informação, sou um bruxo e acho melhor não te meteres comigo e nem com meu amigo, então, se mais uma vez tentar tocar em Bernard, estará com sérios problemas! - falou Raven impositivo ainda que estivesse deitado na cama com os joelhos arruinados.
- Está bem, não sou louco de me arriscar com alguém como você, percebi que não está de brincadeira por teu tom de voz, se bem que, se eu quisesse, poderia matar ambos apenas com uma mão - respondeu Karnstein com escárnio.
- Toques uma de tuas mãos imundas em mim ou em Bernard para veres do que sou capaz! - exclamou o bruxo das leis no auge de sua raiva.
- Está bem então, por enquanto eu deixarei os dois em paz, mas fiquem preparados porque a qualquer momento posso explodir e se acontecer isso, ambos estarão sem saída - disse Karnstein, que pensava em usar de alguma forma os dois para seu sinistro objetivo: eliminar para sempre a Irmandade e o resto do vilarejo, agora vila bruxa - trouxa, por um único motivo, os camponeses terem ousado invadir seu castelo para ceifar-lhe a vida e, não importaria quem estivesse pela frente, todos seriam exterminados sem dó nem piedade.
- Isto se eu estiver sem minha varinha e Bernard sem as armas seu maldito! - disse Raven olhando para Karnstein e espumando de ódio pelo vampiro.
Depois de um minuto, eles resolveram que o melhor era parar a discussão e continuar naquele incômodo até que alguma coisa concreta fosse feita para amenizar aquilo, já que logo Raven e Bernard teriam de ir até Viena levando Karnstein consigo para usar como moeda de troca pela família do advogado bruxo.
Ao mesmo tempo, os habitantes daquele lugar encravado nas montanhas trabalhavam como nunca para fazer aquele lindo lugar crescer sem desconfiar que o Conde Karnstein estivesse vivo e andando entre eles naquele momento:
- Como esse lugar mudou desde que o desgraçado Hoffer me atirou aquela estaca, nunca pensei que tantos imbecis se arriscariam em vir montar vida nesse lugar perdido no tempo e no espaço, bem que meu avô dizia que bruxos são inferiores! E agora a ridícula Irmandade está sob o comando do imbecil do Harold, aquele holandês nariz de batata e metido a liberal!
Chegando perto da barraca de frutas e verduras da senhora Günther e observando dali o resto da vila bruxa - trouxa, o vampiro percebeu que muita coisa ainda continuava a mesma e pensava:
- Sempre a feirante de quinta balançando as pelancas velhas, o dono da taverna falando as mesmas besteiras de sempre, o abestalhado do Karl comentando sempre da vida alheia e o Levine pregando a idiotice do liberalismo inglês, ah minha nossa, que pessoas certas de inteligência suportariam isso?!
- Procura algo senhor? - perguntou a alegre gorducha alemã, dona da famosa barraca de frutas e legumes, vendo que havia um rapaz alto e jovem na frente de seu negócio.
- Sim, procuro alguém para matar! - falou Karnstein em tom baixo, mas muito ameaçador e, virando-se para a barraca, apontou a pistola que carregava para a senhora.
A senhora Günther levou um susto ao reconhecer o rosto do Conde Karnstein em sua frente e tentou dizer algo, porém foi impedida por ele: - Melhor que fique quieta, mas bem quieta mesmo se não quiser levar um tiro nessas pelancas penduradas!
A verdureira queria avisar a todos da presença do vampiro, porém aquela arma apontada para ela não permitia que ela esboçasse reação, o que fez o malvado ser rir bem baixinho e de modo quase sádico.
A velha senhora rezava para não levar um projétil de arma de fogo enquanto o vampiro ria cruelmente vendo a situação em que ela se encontrava, porém, ele não contava com os perspicazes olhos do padre bruxo Constantino, que por ali passava a cavalo.
Vendo o estranho fato que se passava, o religioso desceu do animal a um metro e meio da banca e perguntou de surpresa: - O que está acontecendo, por que esta arma apontada para a senhora Günther moço? Acho melhor ter uma explicação para isso!
- Tenho sim, padreco medíocre, retornei para tomar de volta o que é meu, toda esta terra e farei de tudo para conseguir, mesmo que tenha de massacrar esta gentalha, incluindo o senhor e esses bruxos! - exclamou o nobre vampiro se virando com a arma apontada contra o peito do padre.
Vasos se quebraram, panelas caíram ao chão, apenas algumas das muitas e variadas reações que se fizeram nas pessoas da volta ao verem novamente o infame vampiro com os pés no vilarejo.
- Então você é o famoso Conde Karnstein? Pois fique sabendo que estas terras não são suas, são do povo que vive e construiu aqui uma vida e também, nunca mais ofenda um membro da Igreja de Deus seu pecador desavergonhado! - exclamou o padre furioso.
- Achas que eu me importo com o fato desse lugar perdido ser povoado por um bando de camponeses calhordas analfabetos e semi-analfabetos e um grupo de bruxos que acham que conquistaram o mundo só porque foram emancipados por alguns impérios?! Expulsarei todos daqui, aliás, farei melhor que isso, eu matarei todos, pagarão por terem desejado minha morte! - gritou enfurecido o vampiro e pronto para apertar o gatilho da arma.
- Isto se eu e os outros permitirmos, desgraçado filho de uma meretriz! - berrou alguém jogando com força uma consideravelmente grande pedra na mão do vampiro e conseguindo acertá-lo, desarmando-o.
Karnstein, que se distraiu apontando a arma para o padre, viu sua arma ir longe, ficando sem poder ameaçar ninguém, sob os olhares repletos de ódio de todos ali presentes, que estavam prontos para linchar o vampiro.
- Para o seu bem, pare de nos ameaçar, antes que aconteça algo pior com você, essas pessoas não estão nada felizes com sua presença - falou o padre querendo permanecer calmo depois da fúria momentânea.
- Não te metas padreco, o assunto é entre eu e esses ridículos que mataram minha Frieda, fazendo ela se atirar daquele muro dentro do fosso e também com esse bando de mortos de fome que estão a tua volta! - gritou o vampiro apontando o dedo na direção do padre.
O padre não esboçou nenhuma reação, mas um furioso Levine gritou: - Para falar bem a verdade seu infame desgraçado, Frieda não está morta, ao contrário, sobreviveu e conseguiu fugir do vilarejo e agora está em Viena se lambuzando na cama com o traidor de nossa Irmandade, George Witcherwell, que nos traiu por causa dela e certamente aquela puta nem lembra mais de você, então cala a boca seu corno!
Karnstein ficou estático ao escutar aquilo e Harold furioso, querendo dar um soco em Levine: - Será que apenas um dia pode segurar essa língua comprida e não usar termos baixos?!
- Este vampiro filho da puta merecia ouvir isso e ser alvo de chacota para deixar de ser arrogante de nariz empinado! - retrucou Levine.
- Eu tenho que admitir que dessa vez o Levine tem razão - falou Hufllepuff rindo.
- Isso não pode ser verdade, não pode ser, eu a vi pular aquele muro e bem embaixo há um fosso de água corrente, ela morreu derretida lá! - exclamou Karnstein se recusando a acreditar no que ouvira, além de estar andando em direção a Irmandade.
- É verdade e tenho como provar - disse o padre com um tom de voz calmo.
- Pois então quero ver essas provas e será agora! - exclamou Karnstein se voltando enfurecido para o padre.
- Petrificus Totalus! - exclamou o padre usando sua varinha mágica para paralisar o vampiro.
Todos riram ao ver o conde congelado pelo feitiço enquanto Harold e mais dois levavam-no para a casa do líder da Irmandade, onde ele seria descongelado e amarrado para dizer como voltara e o que de fato queria.
Maria e Anton testemunharam a cena sem conseguir esboçar uma reação plausível, pois ainda não queriam crer que aquilo estava acontecendo e o pior, não havia passado três meses da morte dele e ele já voltara para causar ainda mais problemas ou será que seria ainda pior? Eles se perguntavam enquanto pensavam no dia de seu casamento, que selaria o amor que sentiam um pelo outro.
Na casa de Harold, ele e alguns dos irmãos conservadores, além do padre, colocaram Karnstein de pé e chamaram o gigante Wolffenbüttel e mais um camponês forte do vilarejo para segurar o vampiro caso ele tentasse fugir. Os dois chegaram ficando dos lados de Karnstein e o padre exclamou apontando a varinha: - Finite Incantatem!
Karnstein, logo que voltou ao normal, foi segurado fortemente pelos fortes camponeses e repeliu a cruz que o padre ostentava, gritando: - Sai de perto de mim com isto, meus olhos estão pegando fogo!
- Não saio enquanto não te amarrarem - respondeu o padre fazendo sinal para atarem o vampiro com cordas bem fortes.
O conde vampiro resistiu fortemente enquanto os irmãos, com imensa satisfação amarravam, com nós apertados, as mãos e pés do vampiro, que berrava inúmeros impropérios contra tudo e todos ali.
- Cala tua boca, maldito! - exclamou Harold dando uma forte bofetada no rosto do vampiro para fazê-lo parar de gritar.
Depois de terminar o serviço, eles riam ao ver Karnstein a ponto de chorar, amarrado, odiado, agredido e humilhado de forma brutal enquanto o padre bruxo tirava o crucifixo e puxava uma cadeira para sentar diante do vampiro e interrogá-lo.
- Senhor Conde Karnstein, todos aqui sabemos que o senhor morreu estaqueado por Anton Hoffer no mesmo dia em que você assassinou o senhor Gustav Weil, antigo líder da Irmandade - falou o padre olhando nos olhos do vampiro.
- Sim, é verdade. Suponho que queira saber como voltei, não é? Então, o senhor lembra-se da cena de arrependimento ridícula protagonizada por aquele advogadozinho bruxo de meia pataca na igreja? Pois foi ele que ministrou um ritual de magia negra para fazer meu retorno e fez isso não por querer, mas porque a família medíocre dele está em perigo! Coitadinho dele não é? - disse o vampiro dando gargalhadas e quase cuspindo no rosto do padre.
O padre e Harold ficaram impressionados enquanto os irmãos conservadores que lá estavam pensavam em reunir os outros seguidores de Gustav e ir até a casa de Raven, pegá-lo e queimá-lo na fogueira, o mais adequado castigo para um bruxo que ousou trazer de volta o satânico vampiro Conde Karnstein.
- Nenhum de vocês ouse sair daqui, iremos todos juntos à casa do Raven! - exclamou Harold percebendo o que os irmãos fariam.
- Quem traz o mal de volta tem de ser severamente punido! - exclamou Wolffenbüttel no auge da fúria.
- Será que nenhum de vocês viu como aquele homem estava, aos prantos e se castigando pelo que fez?! Vocês são tão insensíveis e sem coração a ponto de não perceberem que ele fez isso apenas para salvar a família dele, que só Deus sabe onde se encontra e nas mãos de quem?! Por que vocês não se colocam no lugar do Dr. Raven e tentam sentir a dor dele?! Vocês jamais fizeram isso quando queimavam aquelas pobres e inocentes moças na fogueira quando Gustav era líder, pelo menos agora façam isso, provem que são humanos! - gritou Harold a tal ponto que toda a volta escutou.
- Oras Harold, deixe seu sentimentalismo besta de lado! Sabe muito bem que essa seria a vontade do Gustav e que sua liderança não é aprovada por boa parte de meus companheiros por causa do teu liberalismo! E ainda, só aceitamos a chegada dos bruxos por tua causa e pelo fato de serem cristãos como nós apesar de que alguns são de outras religiões, também, nós sabemos que está apaixonado por uma bruxa, coisas que Weil nunca admitiria se estivesse vivo! - revidou Wolffenbüttel a ponto de agredir fisicamente Harold.
Padre Constantino, já furioso com aquela discussão que certamente não iria a lugar nenhum, também gritou: - Não percebem que estamos a ponto de entrar em guerra com as tropas do Império Austríaco, que só Deus sabe quando vão chegar?! E vocês, e ao invés de se unirem, ficam discutindo qual a melhor ideologia para esse vilarejo! Pelo amor de Nosso Senhor, parem com isso e vamos pensar em um modo de evitar que uma tragédia destrua todos nós, os que já moram aqui e aqueles que estão construindo uma vida nova!
Lauzun, Harold e os irmãos que ali estavam se calaram diante das duras palavras do padre bruxo enquanto Karnstein, mesmo amarrado, ria vendo aquela situação: - Bando de idiotas, pensam que podem contra o Imperador?! Conformem-se, já estão todos mortos!
- Cale-se seu desgraçado! - gritou Harold tirando seu crucifixo e pressionando sobre uma das pernas de um indefeso Karnstein durante vários minutos.
O vampiro deu um terrível berro de dor que ecoou por todo o vilarejo e fez todos que estavam à volta tentarem entrar para ver o que tinha acontecido, quando Maria, que ali passava com o noivo Anton, empurrou todos gritando que ele penaria nas mãos dela e do noivo.
Anton concordou e sorriu, adentrando a casa do líder da Irmandade ao lado de Maria e com ela subindo até a sala onde estava o vampiro. Ao enxergar Karnstein se contorcendo de dor em uma das pernas devido à queimadura causada pela cruz sagrada, Maria imediatamente começou a esbofetear o rosto dele inúmeras vezes.
- Pelo amor de Deus Maria, o que está fazendo?! - exclamou Lauzun apavorado e tentando segurar uma enfurecida Maria.
As bofetadas só cessaram depois de vários minutos, deixando o rosto de Karnstein em um vermelho quase sangue e Anton, de quebra, deu muitos socos seguidos no vampiro.
- Parem com isso os dois, por favor, ele já está pagando os pecados dele e continuará até se arrepender deles - falou o padre bruxo espantado com o que acabara de acontecer e vendo Karnstein berrar que jamais se arrependeria de nenhum dos seus atos.
- Mesmo assim, nunca poderei perdoá-lo por ter matado meu tio e minha irmã - disse Maria em seguida completando: - Apesar de saber que Frieda se entregou a ele por vontade própria.
Apesar de ser padre, Constantino sabia que ela nunca poderia perdoar Karnstein por todo o mal que ele fizera e que o vampiro não deixaria aquela tortura a que era submetido passar em branco e faria algo para se vingar.
O padre bruxo lembrou-se que tinha de mostrar a Karnstein as provas de que Frieda estava viva e pegou-as de dentro do bolso da batina, colocando-as sobre a mesa da sala e pedindo aos irmãos que trouxessem Karnstein para próximo, onde ele pudesse visualizar os espinhos, os pedaços de roupa, o sapato e a carta da criada Sabine.
O vampiro, já perto da mesa e ainda amarrado, olhou os objetos e leu a carta, logo depois ficando calado por vários minutos, porém pensando: - Ora sua vagabunda, você sabia muito bem o que estava fazendo quando pulou aquele maldito muro, afinal eu te mostrei todo o castelo durante os dias em que você veio se encontrar e se deitar comigo! Te amo por ser inteligente, mas te odeio por estar com outro!
Karnstein, depois de um tempo calado, gargalhou e exclamou: - Vocês da Irmandade são uns de idiotas, ignorantes e insignificantes, pois tinham um traidor debaixo dos narizes e nem perceberam, deixaram que ele fugisse com o diário do medíocre Gustav! George trocou a sisudez de vocês pelos beijos, carícias, seios, quadris, coxas e nádegas de Frieda!
Furioso, Lauzun tirou sua cruz do pescoço, abriu a camisa de Karnstein à força e pressionou-o sobre um dos mamilos do vampiro, que novamente soltou um grito de extrema dor ao mesmo tempo em que tentava se soltar das cordas que o prendiam.
Enquanto isso, o casal Frieda e George desfrutava da maravilhosa vida que levavam e davam um passeio pela linda Viena conversando alegremente, dando migalhas de biscoito aos passarinhos, trocando discretos beijos com juras de amor, sendo observado pelo mesmo alguém que olhava da janela de sua casa para a bela e voluptuosa vampira.
A bela vampira percebeu que alguém loiro, alto, de físico consideravelmente forte, dono de belos olhos castanhos, rosto de um anjo e usando uma elegante casaca azul marinho a olhava de dentro da carruagem em que estava e espantou-se, afinal, quase ninguém a conhecia em Viena apesar de todos saberem quem era o famoso comerciante George Witcherwell.
A vampira riu discretamente sem perceber que o próprio Imperador Francisco I se aproximava para saber quem era a esposa do comerciante que negociava com seus nobres e o Príncipe Von Metternich, o estadista que presidia o Congresso de Viena.
- Estava a passar pelo Passeio Público quando o Marquês de Munchaünsen disse-me que o senhor tinha uma bela esposa e vejo agora que ele não mentia - disse o Imperador de surpresa.
Frieda quase engasgou com o próprio riso e George ficou sem palavras ao ver ninguém menos que Francisco I diante dele, além de reconhecer, ainda que um pouco longe, o marquês que estava dentro da carruagem e era um de seus maiores aliados comerciais.
Imediatamente, a vampira beijou a mão do governante maior do Império da Áustria dizendo:
- Perdoa-me senhor Imperador, meus olhos não viram que Vossa Excelência se aproximava.
- Levanta-te minha jovem senhora, é tão bela, tua beleza não pode ficar escondida, todos tem de vê-la e o senhor, senhor Witcherwell, o grande comerciante vindo de minha aliada Inglaterra, teve enorme sorte de achar jóia tão rara nestas paragens - disse o Imperador olhando George com uma certa inveja.
- Eu sou de Veneza caro Imperador - disse Frieda dando um belo sorriso.
- Da Cidade do Amor só podiam vir mulheres de inigualável beleza, mas a tua é ainda mais - disse o Imperador beijando a mão da bela vampira sem saber que ela o era.
Frieda sorria para a Grande Autoridade Austríaca enquanto George quase explodia de ciúmes vendo Francisco I olhá-la com um desejo quase explícito e algumas nobres comentando que o Imperador ficara todo bobo com a beleza daquela burguesinha da qual elas nem sabiam o nome, apenas que era casada com Witcherwell, embora ninguém soubesse como eles haviam se casado.
Por alguns segundos, George ficou extremamente furioso ao perceber a troca de olhares entre Frieda e Francisco I, mas percebeu que aquele inesperado encanto do Imperador por ela podia trazer inúmeras vantagens, como o aumento dos negócios dele, uma guinada no plano de vingança deles, além de um título nobre para ambos.
Por um momento, Frieda voltou seu olhar ao “marido” e percebeu o que ele pensava sobre aquilo e ficou ainda mais feliz.
Algumas horas depois, na vila bruxa-trouxa, a Irmandade, depois de se reunir na igreja, se dirigiu à casa do advogado Raven para tirar a limpo a história do ritual satânico e resolver aquilo de uma vez enquanto o Dr. Watson, com remédios mágicos, tratava da fraqueza e dos ferimentos do vampiro Karnstein.
Chegando à casa do bruxo das leis, padre Constantino, Harold e os irmãos viram que ele ainda estava na cama com os joelhos machucados, porém com um grande sorriso e dizendo:
- Bernard acabou de voltar da rua e contou-me o que vocês fizeram com aquele maldito, agradeço muito, ele merecia depois de todo o mal que fez, aliás, merecia bem mais.
- É melhor que o senhor explique o porquê do ritual que ousaste fazer naquele antro amaldiçoado! - gritou Lauzun tão ou mais furioso que o gigante Wolffenbüttel, que ali se encontrava pronto a partir cada osso do advogado.
- Acalma-te irmão, eu explicarei tudo. O motivo disso é que minha esposa e três filhos foram raptados por um bruxo das trevas chamado Klaus Wolff, que foi noivo de minha esposa antes dela conhecer-me. Ele jamais se conformou com o fato de Louise ter se casado comigo, então exigiu que eu trouxesse de volta os cadáveres da família Karnstein, porém não me contou o motivo para fazê-lo, embora eu imagine vários, afinal Wolff faz todo e qualquer tipo de maldade - respondeu o advogado bruxo com um bocado de tristeza na voz enquanto Bernard ficava em silêncio.
- Acho que ele deve ter te pedido isso para testar sua coragem, ver até onde você ia para salvar quem mais ama - falou Harold impressionado.
- Pode ser, mas o único modo de sabermos é descobrindo onde está a família de Raven e ir resgatá-la, assim talvez também consigamos localizar Wolff - disse o padre.
Todos ali olharam para o padre e Harold perguntou: - Como irá localizá-los, existe magia para isso?
- Existe sim, pois alguns bruxos nascem com o dom da telepatia, só que para localizar alguém, uma das pessoas desaparecidas também tem de ter a mesma habilidade para haver o contato telepático - respondeu Constantino pensativo e dizendo logo em seguida: - O problema é que não sei se há alguém aqui no vilarejo com esse dom.
- Padre, meu filho Arthur nasceu com esse dom! Poderemos encontrar todos através dele! - exclamou Raven cheio de felicidade.
- Mas existe a possibilidade de cada um dos raptados terem sido colocados em um lugar diferente - falou irmão Klemens.
- Deixa de ser burro, onde já se viu raptar alguém e fazer isso?! - exclamou outro cutucando o que falara antes.
- Pior é que Klemens pode ter razão, pois alguns bandidos são absurdamente inteligentes e não raras vezes utilizam raptos para fazer emboscada - falou Lauzun dando crédito às inesperadas palavras do irmão Klemens, um dos poucos irmãos com formação acadêmica, no caso, médico.
Todos ali ficaram sem saber o que fazer devido às palavras de Klemens durante minutos até que Harold disse:
- Falarei com os novos moradores daqui e verei se há alguém que tem esse dom, isso será essencial para salvar a família do Dr. Raven e se eles estiverem espalhados, usaremos da magia dos bruxos e de nossas armas para resgatá-los.
- Harold, você é um homem abençoado por Deus, pois sempre está esperançoso e isso é maravilhoso demais para todos! - exclamou o padre bruxo Constantino sorrindo, mas dizendo logo em seguida nem tão sorridente: - Mas sou totalmente contra usar armas.
- Sim padre, nós entendemos a sua posição, mas nesse caso teremos de usar tudo o que possa nos ajudar, afinal, não sabemos o que vamos encontrar pelo caminho - disse Klemens concordando com as palavras de Harold.
O resto pensou o mesmo e logo Harold saiu à busca do bruxo que tivesse esse dom enquanto os outros saíram em busca de armas para o resgate da família do advogado bruxo e também, para uma futura invasão das tropas imperiais, já que eles não podiam prever quando isso aconteceria.
Vendo aquela movimentação, Maria decidiu em pensamento: - Vou ajudar, não posso deixar o pobre Dr. Raven sozinho nisso e nem meu noivo caso ele vá, afinal Frieda pode tentar seduzi-lo novamente!
Katy, vendo a inquietação da sobrinha, perguntou: - O que se passa contigo Maria?
Maria respondeu o que desejava e Katy exclamou: - Está ficando louca Maria?! Isso é coisa para homens e você é mulher, não pode sair viajando por aí com Anton sem ser casada com ele!
- Tia, eu já sou grande o suficiente e além do mais, me defendo bem melhor que antes e deixei de ser aquela mocinha boba que eu era quando aquela desgraçada, maldita e puta da Frieda me manipulava como queria! - exclamou Maria se sublevando contra a tia.
- Isso são termos que se use para se referir à sua irmã?! - espantou-se Katy com o que Maria dissera, já que sua agora única sobrinha jamais tinha tido coragem de usar palavras semelhantes.
- Frieda deixou de ser minha irmã no dia em que permitiu que quase me queimassem e cometeu todos esses horrores até agora e só Deus sabe quantos mais ela é capaz de cometer se alguém não for capaz de pará-la, então eu tenho ao menos de fazer algo e já que não tive coragem de fazer antes, que seja agora! - falou Maria furiosa e subindo ao seu quarto para tomar banho.
A bela jovem entrou no quarto, despiu-se e sentou na bacia de madeira já pronta com água morna pensando em tudo o que acontecera até o momento, principalmente em Anton, o noivo pelo qual era muito apaixonada e a quem desejava como mulher, porém aquilo para ela ficava soando um tanto anormal apesar dela ser bruxa, afinal, ela não era casada e uma esposa que se prezasse não sentia desejo pelo marido, mas logo depois, Maria pensou:
- Ora, não consigo entender por que razão os humanos sem poderes pensam que desejar alguém é pecado, pois se um casal se ama, deveria ter vergonha de dizer que se deseja e tem prazer?
Katy, na cozinha fazendo um bolo, depois de pensar muito nas terríveis palavras ditas pela sobrinha, não teve como discordar delas, pois elas estavam realmente certas e agora, ninguém sabia que os acontecimentos estavam chegando a ponto de tomar um novo e ainda pior rumo por um único motivo: o Imperador Francisco I estava totalmente encantado e desejoso pela voluptuosa vampira Frieda Gelhorn, a maléfica criatura das trevas que mais que nunca, usaria seus sedutores artifícios para conseguir o que desejava.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Frieda, a Vampira - Volume 1: A nobreza despida (1814 - 1854) - Capítulo 6: Vaso ruim não quebra

Vila bruxa-trouxa de Karnstein, que logo mudaria seu nome se dependesse dos humanos sem poderes, feiticeiros, elfos e outras criaturas mágicas, um homem observa o cada vez mais crescente avanço daquele local ao mesmo tempo em que está pensando na tarefa que fora incumbido de fazer, na verdade obrigado a. Da janela de seu escritório, um advogado bruxo olhava o movimento do lado de fora enquanto descansa de seu árduo trabalho de organizar papéis e processos, quando seu criado adentrou o recinto e perguntou: - Deseja algo Dr. Raven?
- Um copo de água, por favor, eu preciso pensar em como farei o que me mandaram fazer - respondeu o advogado.
- O senhor sabe que será perigoso - disse o criado.
- Sim, eu sei, mas há muitas coisas em jogo nesse caso e com elas não posso me dar ao luxo de correr riscos - falou Raven olhando um ponto distante no horizonte.
Os dois se calaram daquele assunto oculto enquanto o resto do vilarejo trabalhava arduamente para crescer e um dia tornar-se uma bela cidade.
Maria e Anton fiscalizavam o trabalho e o incentivavam com palavras positivas ao mesmo tempo em que namoravam apaixonadamente, ansiosos pelo dia em que finalmente seriam uma só carne, um só coração e um só corpo.
Enquanto isso, Branca costurava roupas para os pobres sob o olhar reprovador da mãe Loretta, uma sonserina nata que achava que ajudar os humanos sem poderes era coisa de sangues ruins, o que constantemente causava brigas entre as duas. Desde os 17 anos, Branca não se dava bem com a mãe devido ao fato de ter se convertido ao catolicismo, religião considerada pelos sonserinos como grande idiotice e aquilo a incomodava profundamente.
A bela florentina não parava de pensar no holandês Harold, pois estava apaixonada por ele, porém, contar aquilo para a mãe seria impossível, pois Loretta nunca aprovaria o casamento dela com um trouxa, ainda mais se ele fosse líder da Irmandade.
Harold, enquanto trabalhava na construção da indústria bruxa, também não parava de pensar em Branca, por quem estava muito apaixonado, imaginando o dia em que eles se casariam.
Simultaneamente, Dr. Raven planejava cuidadosamente, ao lado do criado, o trabalho que tinham encomendado a ele, algo complicado, que certamente não poderia ser descoberto sob o risco dele e Bernard serem presos e quem sabe mortos ou exilados, já que aquilo seria considerado um crime hediondo.
Olhando o embrulho que o mandante do serviço havia lhe dado na Prússia, o advogado pensava em como encontraria o destino do conteúdo daquilo que estava em suas mãos, já que o lugar onde ele tinha de ir era grande.
Em Viena, Frieda dormia profundamente e sonhava com o Conde Karnstein, que havia morrido de forma tão cruel e, ao ver a estaca atravessando o coração de seu amado, acordou gritando e chorando, lamentando a sorte daquele que fora seu primeiro homem, aquele que a fizera sentir prazer pela primeira vez, beijando seus lábios e seu corpo, tocando-o com carinho e lascívia, deixando-a louca e pedindo por mais, bem mais, uma vez mais ela queria poder sentir aquela sensação deliciosa e louca que sentira com ele.
De repente, a raiva tomou conta dela, fazendo-a jogar os travesseiros para os lados e um vaso em direção à parede, chamando a atenção do criado Tutchenko, que fora correndo ao quarto da patroa, que chorava raivosa e abraçada a um dos travesseiros:
- Malditos religiosos da Irmandade, eu quero que vocês todos morram pendurados na ponta de uma corda, desgraçados! Mas quero me vingar principalmente de você Anton Hoffer, professorzinho bruxo desgraçado, maldito, foi você quem atirou aquela estaca no meu amor ajudando aqueles malditos a vencerem e salvando aquela imbecil filha da puta da Maria! Vocês dois deveriam estar mortos!
- Minha bela patroa, o que se passa contigo?! Está molhada de pranto! - exclamou o siberiano com espanto.
Frieda desabafou o que sentia com o criado, já que George não se encontrava em casa e Lucrecia estava fazendo bordados no jardim, bem longe de onde ficava seu quarto.
- Oh senhora, eu sinto tanto, porém, não posso ajudar muito, mas lhe ofereço meu ombro amigo para poder chorar - falou o siberiano acariciando o rosto de sua patroa.
A vampira chorava no ombro de seu fiel criado até que, depois de alguns minutos, o siberiano e ela trocaram beijos repletos de desejo, deitando-se na cama e fazendo sexo como se Frieda fosse totalmente descompromissada e prostituta.
Ela sentia uma imensa lascívia nos braços daquele russo musculoso, ele fazia exatamente tudo o que ela queria, deixando-a enlouquecida de tanto prazer. Ele a beijava inteira e a fazia beijá-lo inteiro também, enlouquecendo de prazer ao sentir os lábios daquela vampira diabólica.
Frieda achava-o bonito apesar da enorme cicatriz no rosto do siberiano, pois aquela marca era tão clara que quase não aparecia, de longe ninguém notava, mas era percebida quando vista de perto, mas apesar disso, Tutchenko ainda era lindo para ela e o homem mais delicioso que ela tinha conhecido intimamente depois de Karnstein e George.
A vampira sabia que tinha cometido adultério, porém não se importava, porque quem ela amara antes e ainda amava morrera de uma maneira cruel e covarde na visão dela, mas ela não podia negar que também sentia algo por George, o responsável por ela ter conseguido fugir do vilarejo e por tudo o que ela tinha agora: roupas caras, chapéus, jóias de valor inestimável, uma luxuosa casa, criados submissos a ela, em suma: vida de rainha.
Ela ria abraçada a Tutchenko enquanto imaginava a Irmandade, Anton e Maria na forca, balançando mortos sob o ódio da população vienense e do imperador, que com aquilo, mostraria que ninguém podia mais que ele, além de dar gemidos repletos de prazer no ouvido do russo, já o siberiano aproveitava cada segundo e centímetro do corpo magnífico dela, possuindo-a com todo o desejo que um homem possuía uma mulher, no caso de Frieda, uma vampira.
Depois de momentos inesquecíveis de prazer, Tutchenko pegou suas roupas jogadas pelo chão e vestiu-se para sair do quarto, já que George logo voltaria e Frieda tirava os lençóis da cama para mandar lavar, pois não queria que o britânico percebesse que havia sido traído por ela.
Noite na vila bruxa e trouxa, Raven prepara seu cavalo, pronto para ir onde foi mandado, com sua varinha no bolso e armado com uma pistola para o caso de alguma eventualidade. Logo, ele saiu junto com o criado em direção para onde tinha de se deslocar.
- Eu estou a cometer um enorme pecado, será que eu serei perdoado por Ele, que é meu Senhor e meu Deus? - perguntava choroso o advogado enquanto subia a colina a cavalo junto com Bernard.
- O senhor sabe que precisa salvar sua mulher, suas filhas e seu filho, elas estão correndo perigo nas mãos daquele maldito, ele pode matá-los se você não fizer o que ele mandou - respondeu Bernard tão ou mais sentido que o patrão, por quem, secretamente, era muito apaixonado.
- Mas por que ele me escolheu, por quê?! - exclamou Raven se sentindo desiludido com tudo.
- Ele fez isso porque sabe que você faria de tudo para salvar sua família, o que você mais ama, além disso, aquele desgraçado nunca aceitou o fato de Louise ter casado com você, afinal, ela terminou com ele para casar contigo - respondeu o criado olhando para o patrão, que acompanhava desde sempre, já que eles eram amigos desde a infância.
- Meu Deus, eu quero me matar se tiver que cometer essa infâmia! - exclamou Raven apertando as mãos contra as rédeas do cavalo.
- Louise, Elizabeth, Corinna e Arthur precisam do senhor agora mais do que nunca, nem pense em querer se matar! - exclamou apreensivo Bernard.
Depois daquela conversa, os dois, calados, seguiram a cavalo colina acima até que eles avistaram, em sua terrível imponência, o infame castelo Karnstein, que fora cenário dos piores atos já cometidos pela família que dava nome ao castelo: amores contrariados, prazeres devassos e proibidos, assassinatos, cultos e sacrifícios à Satã e tudo o mais de pior que podia se imaginar naquele local tão lúgubre.
Lá chegando, amarraram os cavalos em um tronco e trataram logo de abrir o enorme portão, que tinha sido trancado em definitivo, depois que os vampiros daquela horrível família tinham sido mortos pela Irmandade e Anton Hoffer, para nunca mais ser aberto e impossibilitar qualquer acesso aquele lugar amaldiçoado.
- Este portão foi muito bem trancado, como é que vamos abrir? - perguntou Bernard vendo as fortes correntes e o grande cadeado que prendiam o portão.
- Não se preocupe, um feitiço resolve isso - respondeu Raven em seguida dizendo com a varinha apontada para o cadeado:
- Alorromora!
O cadeado se desprendeu da corrente com a palavra mágica e logo após tirarem as correntes já livres, eles empurraram o portão de ferro e adentraram o sinistro local, muito escuro por conta da noite sem lua e parecia querer engolir Raven e Bernard, cujas mentes estavam concentradas em um único objetivo: evitar que a família do advogado bruxo Christopher Raven fosse eliminada pelo ódio de um feiticeiro das trevas chamado Klaus Wolff, mesmo que para isso eles tivessem que fazer algo que certamente seria considerado crime, quem sabe até podendo custar as vidas de ambos.
Porém, eles sabiam que o sacrifício era válido, pois a esposa e os filhos do doutor em leis estavam aprisionados ninguém sabia aonde pelo maldoso e poderoso bruxo alemão, cujo ódio pelo advogado feiticeiro escocês vinha de anos atrás, por que este lhe roubara Louise, que, quando se apaixonou por Raven, era sua noiva.
- Quer saber doutor? Este lugar não me traz boas impressões, não consigo olhar para ele sem sentir nojo - falou Bernard, cujos olhos corriam pela enorme sala de poucos móveis e muitos quadros.
- Quem não sentiria nojo de pisar neste chão maldito?! Eu sinto e não nego! Quero terminar logo isso para tirar meus pés desse castelo do mal! - exclamou Raven furioso e sem olhar para nada.
Eles procuravam a cripta da família para fazer o que consideravam o mais hediondo dos crimes: ressuscitar os cadáveres da família Karnstein, cuja quantidade eles não sabiam qual era e não importava desde que eles fossem trazidos de volta, podia ser um, dois ou mais, mas nenhum seria o número ideal para o bruxo incumbido de tal tarefa e qualquer número já deixaria Wolff satisfeito.
- Encontrei a cripta! - exclamou Bernard cuja voz ecoou pelo castelo.
- Graças a Deus, já estava cansado de andar por esse lugar, meus pés estão arrasados! - exclamou Christopher dando sinais de cansaço devido às horas de procura da cripta.
A sepultura estava trancada feito o portão antes, o que fez Bernard retirar de dentro do casaco uma marreta para arrombar o cadeado que prendia as correntes. Depois de partir a tranca da porta da sepultura, ele, junto com o patrão, entrou naquele lugar ainda mais horrível que o castelo inteiro.
- Meu Deus, esse jazigo é ainda mais tétrico do que pensei! - disse Christopher com espanto ao ver aquele lugar repleto de diabólicas gárgulas de mármore.
- Eu nem comentarei isso! - falou o criado com igual sentimento que o patrão, porém logo teve que dizer algo que poderia agradar ou não a este devido à situação em que eles se encontravam: - Não há nenhum cadáver nesta cripta, pois se sei, todos deveriam estar sobre as lápides e cobertos, porém não há nada a não ser as camas de mármore!
- Ah meu Deus, isso não estava nos nossos planos! - exclamou Raven desesperado apesar de estar feliz por não haver nenhum morto na sepultura.
- O que ainda não compreendo é o motivo de Klaus ter lhe mandado fazer isso - pensou Bernard.
- Também não entendo, só sei que ele raptou minha família e ameaçou matá-los caso eu não fizesse isso, tanto que ele me deu estes dois frascos de sangue virgem para o trabalho não ter nenhum erro, além do mais, Klaus me falou na maior safadeza que saberia se eu não fizesse o que ele mandou! - gritou Raven olhando para o céu e fazendo mentalmente uma oração por sua família muito amada além de tirar os frascos de dentro de sua maleta.
Os dois pensavam naquilo enquanto andavam pela cripta, quando de repente, Bernard, que estava em uma parte mais ao fundo daquele lugar, pisou em uma pedra solta, caindo em um buraco de quase três metros de profundidade.
Ouvindo o grito de dor de seu criado, o doutor em leis correu até onde ele estava e viu que ele tinha caído em uma passagem oculta, porém Bernard não estava machucado, a dor havia sido causada pelo impacto da batida.
Descendo de modo que não se ferisse, Raven viu, iluminando o local com a tocha, que tinha algo debaixo de um grupo de pedras, através de um pano cuja ponta estava de fora e que pelo visto, parecia ser bem grande além de uma lança que estava com uma parte exposta. Depois de ajudar seu criado e fiel amigo a levantar-se do chão, ambos se aproximaram de onde estava o que o bruxo advogado tinha visto.
- Não acredito, será que isso é o que estamos pensando? Eu prefiro que não seja - falou Christopher olhando aquilo com surpresa.
- Pelo bem de sua família patrão, é melhor que seja, porém temos que tirar todas essas pedras se de fato queremos saber - respondeu o criado não muito feliz com o que teria de fazer.
Raven deu uma bufada furiosa e Bernard começou a tirar as pedras enquanto o patrão descansava um pouco depois da caminhada pelo imenso castelo. Depois de uma hora, o advogado resolveu ajudar seu criado a tirar as pedras, já que elas eram pesadas e o criado homossexual já não era tão novo.
Depois de mais uma hora e dez minutos, eles concluíram o trabalho e viram que havia um cadáver coberto ali; observando bem, Raven lembrou-se de ter ouvido um alegre comentário sobre como ocorrera morte do Conde Karnstein, além de impropérios imensos sobre este, ambos ditos pelo irmão que usava lenço branco e chamava-se Theodore Levine, outro estrangeiro da Irmandade que era um pouco mais velho do que o traidor George Witcherwell.
- Deus, este é o nobre Karnstein! - exclamou Raven ao ver o estado do cadáver depois de descobri-lo e reconhecê-lo.
- Pelo jeito, alguns ciganos que o serviam se aproveitaram da distração dos camponeses enquanto estes acudiam Gustav no dia de sua morte para esconder o corpo do conde em outro lugar, uma jogada das melhores, eu devo dizer - falou Bernard pensativo e apontando o cadáver, além de lembrar as conversas paralelas dos camponeses sobre o assassinato do conde vampiro.
- Mas como eles fizeram isso?! Seria praticamente impossível! - exclamou Raven impressionado.
- Ciganos tem seus métodos de fazerem as coisas, de bobos eles não têm nada, além do mais, a escada é bem alta, o que tornaria isso perfeitamente plausível, já que os camponeses não iriam enxergar completamente o morto - falou Bernard soltando uma risada totalmente imprópria para o momento.
- Nesse aspecto te dou razão, essas pessoas são espertas assim como a maldita que Karnstein vampirizou - disse Christopher se lembrando de vários comentários que ouvira dias atrás.
- Aquela, além de esperta, é uma rameira, afinal, onde já se viu se entregar desse jeito para um homem? - falou o criado como se não tivesse a condição que era considerada uma contradição da natureza.
Raven fez cara de nojo e tratou logo de ir pegar os frascos que haviam ficado do lado de cima. Voltando em seguida com todos nas mãos, ele pediu ajuda a Bernard para pô-los perto de onde estava o corpo do conde já em avançado estado de putrefação.
- Isto aqui cheira a podre, nossa! - falou Christopher tapando o nariz.
O criado nada disse enquanto abria o primeiro frasco e o advogado retirava do peito do cadáver a pontiaguda lança para tornar mais fácil o ritual que tinha de ser feito para trazer de volta à vida o infame e maldito Conde Karnstein.
Depois de deixar o corpo sem a lança, o doutor em leis pegou das mãos de Bernard o frasco de sangue virginal, levantou-o para cima e disse, ainda que hesitante, os satânicos versos:
- Senhor das Trevas, Príncipe do Inferno, ouve o apelo do teu servo. Manda do teu lado negro o poder para cumprir o teu desejo na Terra. Revive este pó para que, a teu serviço, os mortos se unam aos não mortos. Aceita este sacrifício em tua homenagem. Transforma agora este sangue fresco e quente em corpo da tua criação e este espírito inocente no mal - e logo depois, derramou sobre o conde o conteúdo do vidro que o criado abrira.
De repente, raios surgiram no céu e começou uma imensa tempestade, sinal de que a terrível magia estava dando certo, além da luz vermelha que emanava do corpo coberto do Conde Karnstein.
Raven nem quis ver o resto do que acontecia e correu até a janela gritando: - Vou me matar, prefiro morrer a viver com essa hedionda desonra!
Bernard foi mais rápido que o patrão e o segurou para evitar que ele se atirasse penhasco abaixo: - Lembre que sua família precisa de você!
- Quando souberem o que fiz, não vão querer saber mais de mim! Eu já estou desgraçado pelo resto da vida, eu prefiro a morte que viver com todos a meu redor me apontando como criminoso! - exclamou Raven desesperado e tentando se soltar do criado para se atirar pela janela.
- Não se preocupe patrão, quando formos para Viena resgatar sua família, darei um fim na existência de Klaus Wolff com um tiro naquele peito maldito dele! - exclamou o criado homossexual tirando o patrão da janela e mostrando a pistola que carregava consigo.
Raven acalmou-se e acompanhava o criado, quando ambos viram o morto se mexer debaixo da mortalha branca e imensa e levantar-se, dando um susto neles e, já ressuscitado, descobriu-se da mortalha coberto de sangue, o que deixou os dois ainda mais apavorados do que estavam.
- Meu Deus, o que foi que fiz?! Por favor, meu amigo, dá-me tua pistola, eu quero atirar contra meu peito se tiver que conviver com isto me atormentando! - gritou Raven abraçado ao criado e desejando apenas a morte.
- De nada vai adiantar patrão, esta coisa vai ficar viva querendo nós ou não, lembra-te de que tua família, que considero como minha também, está correndo perigo porque não sabemos do que aquele Wolff maldito é capaz e o pior é que não sabemos o motivo dele ter nos pedido isso - falou o criado na tentativa de acalmar Christopher.
O vampiro já acordado olhou para os dois e sorriu cordialmente de modo sinistro.
Agora Raven e Bernard não sabiam o que fazer, pois tudo podia acontecer quando se tratava de um ser como Karnstein.